Artigo · Cidadania ativa

Participar não é brigar: a cidadania além do confronto

A participação democrática pode ser firme, respeitosa e contínua. Cobrar informação, reconhecer acertos e acompanhar decisões não exige confronto.

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· Jurandir Sotero

Quando se fala em participação política, muita gente imagina uma discussão interminável, uma disputa partidária ou uma rotina de confrontos. Essa associação afasta justamente pessoas que gostariam de contribuir, mas não desejam transformar toda conversa sobre o país em uma briga.

O livro Três Não, Quatro! faz uma distinção fundamental: participar não é brigar. Participar é permanecer. É continuar atento depois do voto, porque a vida pública não para quando termina a apuração.

Firmeza não exige agressividade

Imagine que uma unidade de saúde esteja enfrentando atrasos frequentes. Há diferença entre acusar indiscriminadamente todos os profissionais e perguntar qual é a previsão de atendimento, como funciona a organização da fila ou quais providências estão previstas para melhorar o serviço.

A primeira atitude costuma gerar defensiva e pouco esclarecimento. A segunda procura transformar um problema em informação e acompanhamento. Não significa aceitar qualquer resposta. Significa escolher um caminho capaz de produzir registro, comparação e nova cobrança, quando necessária.

Uma manifestação na ouvidoria, um pedido de informação ou a participação em um conselho podem ser formas legítimas de agir. Nenhuma delas exige que o cidadão abandone suas convicções ou aceite ser tratado como inconveniente.

Quem participa também pode elogiar

Controle democrático não é sinônimo de denúncia. Ao acompanhar uma política pública, podemos encontrar falhas, mas também iniciativas bem executadas, servidores comprometidos e soluções que merecem reconhecimento.

Elogiar uma melhoria não é aderir a um governo. Questionar uma decisão não é declarar guerra a ele. Quando separamos avaliação de torcida, criamos condições para que instituições recebam observações úteis, em vez de apenas manifestações de apoio ou hostilidade.

O compromisso com fatos e critérios protege inclusive o cidadão que critica: uma pergunta clara pode ser respondida, documentada e acompanhada; uma acusação sem fundamento pode desviar a atenção do problema real.

A eleição é o início do acompanhamento

No livro, o voto aparece como uma chave. Participar é não entregar essa chave e desaparecer. Quem mora numa casa não deixa de observar sua conservação porque confiou as obras a um profissional. Acompanha prazos, conversa sobre mudanças e verifica se o combinado foi cumprido.

Com a democracia ocorre algo parecido, respeitadas as responsabilidades de cada um. O governante administra; os órgãos competentes fiscalizam; o cidadão acompanha, pergunta e participa pelos meios disponíveis.

Não é preciso fazer tudo. Escolha um tema próximo, conheça os canais oficiais e mantenha uma frequência possível. Um acompanhamento mensal, bem feito, pode ser mais útil do que indignações intensas e passageiras.

É essa cidadania ativa, civilizada e persistente que o projeto Controle, o Quarto Poder procura incentivar. Democracia não se resume a escolher quem governa. Inclui acompanhar como se governa.

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