Artigo · Reflexão democrática

O quarto poder e a polarização

A polarização transforma eleições em disputas entre esperança e medo. E se o Controle Democrático fortalecesse os trilhos que limitam e orientam qualquer governo?

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· Jurandir Sotero

Há alguns anos, o Brasil convive com uma polarização política intensa.

Para muitos brasileiros, uma eleição presidencial deixou de representar apenas uma escolha entre projetos de governo. Passou a representar uma disputa entre esperança e medo.

Não é difícil ouvir afirmações como:

  • "Se o outro candidato vencer, vou embora do país."
  • "Se ele ganhar, fará o que quiser durante quatro anos."
  • "Se o meu candidato vencer, colocará o Brasil no caminho certo."
  • "Pelo menos, se o meu ganhar, o país não piora."

Por trás dessas frases existe uma percepção preocupante: a de que o destino do país depende quase exclusivamente de quem vence uma eleição.

É como se a democracia precisasse encontrar, a cada quatro anos, um novo "Salvador da Pátria". E, quando o candidato adversário vence, a esperança dá lugar ao medo.

Mas será que uma democracia sólida deveria depender tanto de quem ocupa o poder?

O governante não é piloto de avião. É maquinista.

Imagine um político pilotando um avião. Depois de eleito, ele assume os comandos e pode escolher livremente a direção. Aos passageiros resta confiar que chegarão ao destino esperado.

Agora imagine esse mesmo político conduzindo um trem.

O maquinista tem responsabilidades, toma decisões e conduz a composição. Mas existe uma diferença fundamental: ele precisa seguir trilhos, e o trem não pertence a ele. Pertence a todos.

Na democracia, esses trilhos representam a Constituição, as leis, os limites institucionais e os mecanismos de Controle.

São construídos e aperfeiçoados pela sociedade e suas instituições. Envolvem cidadãos, Legislativo, Executivo, Judiciário, órgãos de fiscalização e os próprios mecanismos de controle interno da administração pública.

O maquinista pode escolher entre caminhos diferentes, conforme seu projeto de governo. Mas não deveria poder inventar sozinho um novo trajeto, ignorando regras, instituições e interesses coletivos.

Os trilhos também podem mudar. Mas sua alteração precisa respeitar os processos democráticos, e não apenas a vontade de quem momentaneamente conduz o trem.

O Controle não escolhe o destino político do país. Ele ajuda a garantir que o caminho escolhido respeite a democracia.

O que mudaria na prática?

A proposta de reconhecimento do Controle como Quarto Poder Democrático não pretende criar um novo governante, nem uma autoridade superior aos poderes existentes.

Propõe reconhecer e fortalecer uma dimensão permanente e transversal da democracia: o acompanhamento, a fiscalização, a transparência e a correção do exercício do poder.

Essa mudança de paradigma começa na consciência popular.

O cidadão compreenderia que sua participação não termina na urna. Ele pode acompanhar decisões, exigir explicações, verificar resultados e utilizar instrumentos de Controle que já existem e podem ser aprimorados.

Quem vence uma eleição também precisa compreender algo fundamental: embora tenha sido escolhido por uma parcela dos eleitores, passa a governar para todos.

Isso não significa que suas decisões precisem agradar a todos. Significa que argumentos contrários merecem ser ouvidos, impactos precisam ser considerados e escolhas devem ter justificativas.

Ouvir a oposição não é fraqueza. Prestar contas não é submissão. Respeitar limites não é deixar de governar.

E aqui está uma das contribuições mais importantes dessa proposta para um país polarizado.

O cidadão não precisaria depositar toda a sua esperança na vitória do candidato preferido, nem acreditar que uma derrota eleitoral significa entregar o país sem limites ao adversário.

O Controle não elimina o risco de abusos, mas fortalece os mecanismos para preveni-los, identificá-los e corrigi-los.

Uma democracia madura não exige que todos confiem no mesmo governante. Exige que todos possam confiar nas regras, nas instituições e na capacidade de fiscalizar quem governa.

Afinal, o objetivo não é garantir que o trem seja conduzido pelo nosso maquinista favorito. É garantir que, independentemente de quem esteja na cabine, o trem continue pertencendo a todos nós.

O voto começa a democracia. O Controle é o que a sustenta.

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