Ter opinião é saudável. Ter uma posição política também. O problema aparece quando a opinião chega antes da observação e se transforma num filtro que aprova automaticamente tudo o que vem de um lado e rejeita tudo o que vem do outro.
É nesse sentido que o livro Três Não, Quatro! propõe uma frase provocativa: opinião é depois; preconceito é antes. Aqui, preconceito significa precisamente pré-julgamento: decidir o valor de um argumento sem realmente examiná-lo.
Quando o rótulo ocupa o lugar do critério
Imagine duas administrações diferentes adotando decisões semelhantes. Se uma é liderada pelo político em quem votamos e a outra por alguém de quem discordamos, avaliamos ambas com a mesma régua?
É uma pergunta desconfortável, mas necessária. A fidelidade a um grupo pode nos levar a procurar justificativas para os erros do aliado e suspeitas para os acertos do adversário. Com isso, deixamos de investigar o que aconteceu e passamos a defender quem fez.
Uma política pública não se torna boa simplesmente porque foi proposta pelo nosso grupo. Tampouco se torna ruim apenas porque foi apresentada por quem não apoiamos. O que importa são critérios, custos, consequências, resultados e respeito às regras.
O muro como método, não como fuga
Estar “em cima do muro” costuma ser entendido como falta de coragem para escolher. A imagem utilizada no livro é outra: subir no muro para enxergar melhor o terreno antes de descer e tomar uma posição.
Não se trata de morar ali, fugir de debates ou fingir que todas as ideias têm o mesmo valor. Trata-se de interromper o impulso de reagir por rótulos. Primeiro observar o argumento, o dado e o efeito concreto. Depois concordar, discordar ou propor uma alternativa.
Algumas perguntas ajudam: eu aceitaria essa medida se viesse do outro lado? Que evidência poderia mudar minha opinião? Estou defendendo um resultado ou apenas uma identidade?
Controle não pode ser instrumento de torcida
O Controle democrático exige uma régua que não mude conforme o governante. Isso vale para o político de quem gostamos, para aquele em quem não votamos e até para instituições que afirmam atuar em nome do Controle.
Acompanhar não é torcer por crises para provar que estávamos certos. Quando uma escola falha ou um hospital não atende, o prejuízo não escolhe partido. Desejar uma boa administração pública não significa concordar com todas as decisões de quem governa.
O cidadão pode ter convicções firmes, cobrar mudanças e participar intensamente do debate político. O compromisso é outro: não deixar que suas convicções o impeçam de reconhecer fatos.
O Controle como Quarto Poder Democrático nasce também dessa postura: uma democracia em que a cobrança acompanha o interesse público, e não a cor da camisa. Antes de escolher a conclusão, vale conferir o caminho que nos levou até ela.

